Pois, para mim, não fedeu, nem cheirou. O amigo riu quando eu disse isso. Achava ele que eu ia dizer algo, digamos, mais consistente a respeito de 2008. Mas não. 2008 foi só isso: não fedeu, nem cheirou. Amizades, algumas eu fiz, mas só em 2009 vou sabê-las verdadeiras. Quanto aos velhos amigos, tudo vai bem. Apesar da distância, são com eles que eu vou, com a licença de Pedro Caetano, sambar até cair no chão.
Os livros não me bastaram aos domingos, as angústias me aperrearam como nunca. Alguns - domingos e livros - foram bons. Outros – livros - foram lidos sem gosto. Ando com uma atual incapacidade de abandoná-los pela metade.
Até as músicas: sinto que as deixei um pouco de lado, apesar de ter ido a bons shows, e ao show mais esperado de todos os meus tempos musicais: o do Edu Lobo. Se hoje me perguntares para o show de quem eu mais quero ir: do Edu Lobo, ora, de novo, de novo, de novo.
A boemia foi maltratada, eu diria. Uma boemia sem sentido. Das mesas do ano inteiro, que, aliás, foram muitas, apenas algumas foram da boa boemia, com conversa boa e ressacas prazerosas. De resto, crises existenciais diante do constante desencontro de pares. Faço-me entender quando digo isso? Pois é que passei a maior parte do ano a procurar um par. Não um par amoroso, não diria isso tão publicamente. Passei a maior parte do ano procurando um par. Simplesmente. Um par para meus questionamentos mundano-existenciais, um par para as coisas que me alegram, um par para meus gostos musicais, para meus gostos dominicais, para o cinema, para meus devaneios litero-alcóolicos, para as coisas que dão sentido, na minha opinião, à vida. É certo que tenho pares, mas preciso de mais. Não dou conta de mim, nem os outros. Meus poucos pares continuaram os do ano anterior. Os possíveis novos pares não se tornaram pares, por mais que eu insistisse, por mais que insistissem. Não há insistência no mundo que una díspares.
Houve sambas, houve coisas que há muito eu queria, houve confirmações de supersentimentos, houve brigas, houve fazer as pazes, houve você é um covarde e eu tenho sangue no olho, pedidos de desculpa, houve se fazer de doida (muito!), faz de conta que nada aconteceu também houve. Amores, nenhum. Nada que abalasse. Aliás, minto. Um quis abalar, mas foi curto demais, e era engano, era só uma carência travestida de crença de que aquele moço poderia vir a ser um amor, mesmo que passageiro. Não poderia. Aliás, acho até que ninguém é capaz de ser um amor para mim. Sou um bicho sem jeito, sem modos, uma chita fugitiva.
Comecei e terminei o ano, para bem dizer, do mesmo jeito: funcionária pública, nada-baiana, nenhum plano B começado, nenhuma atividade paralela para além da burocracia. Sequer me matriculei na natação. Eu digo que 2008 foi um daqueles anos que servem para se saber por onde as coisas vão se encaminhar, mesmo esse saber sendo algo inatingível.
Foi um ano de espera. De maturação. Eu fui como uma fruta no pé. Não fossem alguns oásis como o Amanuense Belmiro, o Ensaio sobre a Cegueira – o filme, alguns shows musicais, algumas conversas, o show do Edu Lobo, as pazes com a irmã e as verdadeiras amizades, estava eu a murchar, no pé. Senti-me, boa parte dos meses, incapaz de sentir a integridade das alegrias, a integridade das músicas, das palavras. Ainda me sinto em busca de arrebatamentos, mas capaz de reconhecer que sou bem dotada de poucos, mas bons e verdadeiros afetos. Suportei 2008 graças às minhas pequenas verdades.
Para 2009, eu muito planejo. Mas estou fazendo de conta que não. De verdade, quero apenas duas coisas, que não ouso dizer o que são. Nem conto de como vou conseguí-las. Se virei a falar aqui de alguma coisa, vai ser dos planos que tenho, mas que estou a me fazer que não os tenho. Mas 2009 está longe. Este dezembro rasteja. Posto que hoje é 16 e eu jurava ainda ser 19.